quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Primeira quimio
Amigas(os) hoje é assim que me sinto e quero partilhar com vocês. Ontem fui fazer a minha primeira sessão de quimioterapia. Antes tive consulta com a psicóloga. Ela queria saber como estava. Se me sentida preparada para o tratamento. Respondi-lhe que estava calma e que tinha de ser era para o meu bem por isso, tinha de ir em frente. Estivemos quase uma hora a falar de tudo um pouco. É estranho estar a contar pormenores da nossa vida a um estranho sim, afinal eu ainda só tinha estado com ela uma vez esta era a segunda mas, no final senti-me muito bem. Quando acabamos voltei para a sala onde estava o meu marido e a Laide. Estivemos na conversa até que me chamaram. Lá fui eu. Estava bem disposta e alegre. Estranhos sentimentos! Afinal eu ia para a quimioterapia que tantos efeitos secundários dá mas o certo, é que eu me sentia muito bem disposta.  
A Drª Sónia é muito boa deixou-me bem relaxada.
Chamaram-me. Entrei com o meu marido. Ele perguntou à enfermeira quanto tempo demorava o tratamento. Ela respondeu hora a hora e meia. Levou-me para a sala onde já se encontravam muitas pessoas a fazer os seus tratamentos. Sentei-me num cadeirão todo argonómico e confortável. A sala tinha muito bom aspecto, era agradável. A enfermeira era muito simpática e alegre gostei imenso dela. Ela chegou com o carrinho. Lá trazia o que eu não gosto nada mesmo nada: agulhas.
- Lá vão me fazer maldades: disse eu.
- Nada disso é só uma piquinha na mão.
-Na mão mas ai doí muito. Não pode ser no braço?
-Não e se começar a doer tem de me dizer para eu tirar. Este liquido queima por isso colocamos na mão. Se colocasse no braço e se por algum motivo não estivesse a correr na veia podia danificar o seu braço e a articulação ficaria lesionada para sempre.
- Se é assim vamos lá.
Enquanto a enfermeira preparava as coisas eu só pensava na agulha e no que me ia doer. E assim foi doeu-me imenso. Eu agarrei a mão do meu marido e até o trinquei o pobre! Disse palavrões para mim mesma enfim.
Aquilo não correu muito bem e confesso que eu não ajudei muito. Lá colocou os líquidos a correr e perguntou-me se doía. Claro que doia mas eu não sabia se era da picadela ou do liquido estar a correr. Respondi que não doia estava tudo bem. Ela perguntou-me se eu tinha duvidas sobre o tratamento então eu e o meu marido começamos a fazer uma série de perguntas. A enfermeira esclareceu-nos tudo.
 Ao fim de um tempo e quando ela me colocou a quimio a correr ai sim começou-me a doer. Chamei-a para lhe dizer que me doia. Ela agarrou na minha mão e apalpou um pouco mas aquilo magoava-me- Era para tirar não podia-mos arriscar. Que chatisse mais uma picadela pensei eu. Ao retirar a agulha doeu imenso mas também foi um alivio. A enfermeira Michel (era assim que se chamava) pediu para chamarem outra enfermeira para me picarem novamente. Não me estava a sentir muito bem por isso pedi um copo de àgua. Deitaram-me no cadeirão e deram me de beber àgua com açucar. Eu estava nervosa e palida. A minha cara não era das melhores. As enfermeiras foram espetaculares comigo. Falaram comigo, acalmaram-me, relaxaram-me. Uma maravilha. A enfermeira disse que não ia doer nada só pediu para eu não fugir com a mão. Não acreditei muito que não ia doer mas o certo é que não doeu. Que alivio!
O tratamento lá continuou na tranquilidade. Estivemos a conversar e na brincadeira. O tempo acabou por passar depressa.

Deram-me uns comprimidos para os enjoos para tomar em casa e outros para tomar de 12 em 12 horas. Vim para casa super bem disposta já com a segunda quimio marcada para dia 1 de Março.
Estava lindamente. Jantei, estive um pouco no facebook, e depois um tempão ao telefone pois, as minhas amigas queriam saber com estava, como tinha corrido. Por volta das 23h  fui-me deitar.
Passei a pior noite da minha vida.

Passei a noite toda a vomitar. Horrivel. Nem na gravidez vomitei tanto. Passei a noite em claro só consegui adormecer de manhã e tive sonhos estranhos todos eles relacionados com cancro. Estranho não é? 
O Jorge pediu à minha  sogra para de manhã ficar com o meu menino pois eu não conseguia lhe dar atenção e tinha imenso sono.
Dormi até às 11h. Levantei-me. Não me sentia tão enjoada mas, parecia que um camião tinha passado por cima de mim. Comi e tomei o Emend para os enjoos, a medicação de 12 em 12h e o anti-depressivo. Pedi à minha sogra uma sopa de legumes. Sentei-me no sófa fui até ao meu facebook desabafar com as minhas amigas do Gang da Mama. Falei também com a a Maguie a benfiquista da minha vida. Gosto muito de falar e brincar com ela. As 13 horas fui comer a minha sopinha e fruta. De tarde dormi um soninho com o meu filhote. Agora meste preciso momento em que estou a escrever esta mensagem não me sinto enjoada mas sinto-me muito quebrada, cansada. Disseram-me que estes sintomas dão durante cinco dias depois passa. Assim espero...

Confirmação da Mastectomia
Tanto eu como a minha filhota ficamos doentes eu com uma valente otite devido e a Bia com muita tosse e febre. Estive de atestado médico duas semanas. As minhas amigas ligavam-me para saberem como estava e quando eu voltava para a escola. Eu não sabia se voltava mais. Não estava em condições para dar aulas. A minha cabeça estava em todo o lado menos, na sala de aula. Aquelas crianças não tinham culpa da professora estar assim. O meu marido achava que era melhor para mim ir trabalhar. Segundo ele em casa eu só pensava naquilo que não devia. As minhas amigas eram precisamente da mesma opinião. Eu expliquei-lhes o meu ponto de vista. A Betinha tentou arranjar uma solução. Pediu ao meu coordenador de 1º ciclo e à directora do meu agrupamento se eu podia exercer funções administrativas em vez de dar aulas. Concordaram não havia qualquer problema. Voltei então para a escola. O 1º período estava quase a terminar havia muita coisa a fazer: reuniões, avaliações, relatórios, etc. Até ao dia 22 de Dezembro estive sempre a trabalhar e confesso que me ajudou muito. Recuado um pouco nesta história eu no dia 22 de Novembro tinha tido a consulta de grupo. Levei a mamografia que me pediram e confirmou-se
que tinha de fazer a mastectomia radical.
O grupo aceitou que fizesse a reconstrução imediata. Eu fiquei satisfeita mas voltaram a frisar que corria o risco de falência da cirurgia. Não entendi muito bem mas, ia ter logo uma mama era o que eu queria. A médica marcou logo para o dia seguinte uma consulta de plástica. O Jorge meu marido não estava lá muito convencido. Disse-me que é que sabia mas para pensar bem. Esta cirurgia trazia riscos. Logo de seguida fui falar com a Psiquiatra do I.P.O.. Ela é prima da Lilinha minha amiga da escola. Ela falou-lhe de mim e esta disse para eu ir ter com ela que me ajudava. Fui então falar com a Drª Susana psiquiatra do I.P.O.. Um anjo, muito carinhosa. Ela compreendeu tudo por aquilo que eu estava a passar ,ouviu-me atentamente com muito carinho e no fim deu-me uma opinião:
- Ana!- disse ela
- Pensa com cuidado. Não te precipites. Olha se correr bem óptimo mas e se corre mal? Podes ter que voltar a fazer cirurgia à mama., mais cortes, a mama vai ficar com mais cicatrizes. Não vai ter o resultado que esperavas. Se esperares dois anos o resultado da reconstrução é melhor. Eu sei que para ti é muito tempo mas, eu estou aqui para te ajudar. Pensa bem. Amanhã vai à consulta de plástica e faz todas as perguntas. Tira todas as duvidas, pondera bem. Depois diz-me alguma coisa.
Fiquei a pensar nas palavras que ela me disse. Falei com o Jorge ele era da mesma opinião. Ele não queria que eu fizesse logo a reconstrução. Estava com receio que corresse mal. À noite as minhas amigas vieram a minha casa. Elas eram da mesma opinião. Eu não devia fazer logo a reconstrução. Se os médicos diziam que era um risco é por sabiam o que estavam a falar.
A certeza de querer fazer a reconstrução imediata agora já não bem uma certeza. Tinha medo e duvidas. E se corria mal? E se não corria? Estava muito confusa e com medo.
No dia seguinte fui à consulta. Estive lá muito tempo à espera para ser atendida. Enquanto isto duas senhoras que reconheceram a minha vizinha estavam a conversar com ela.
Estavam a dizer que estavam ali  porque iam à consulta de plástica. Tinham feito a reconstrução imediata e aquilo não correu bem. Eu estava a ouvir com muita atenção. Sei que não é bonito ouvir a conversa dos outros mas foi inevitável. Era um assunto que me interessava. Uma dizia que era a terceira vez que o corpo rejeitava a prótese. Estava farta de tomar antibióticos e de fazer cirurgias e nada resultava.
O médico tinha lhe dito que agora já não podia por mais nada. Ela fez radioterapia e foi por isso que não teve bons resultados na sua reconstrução. A outra também tinha feito reconstrução imediata e radioterapeia. Dizia que a mama reconstruída estava dura como uma pedra. Ia ser operada novamente. A Laide, minha vizinha olhou para mim. O meu marido também e eu já não sabia o que pensar.
 Finalmente chamaram-me. O médico muito simpático cumprimentou-nos e disse para nos sentar-mos.
- Então Ana Paula. Estive a ver o seu processo e vejo que quer a reconstrução imediata!
- Depende. -respondi eu.
- Ah! Está melhor. Eu vou-lhe explicar como tudo isto se processa. O grande problema da reconstrução imediata é a possibilidade de ter de fazer radioterapia. Como sabe a radioterapia queima e em cima de tecidos em cicatrização, não é bom. Corre o risco de infecção e rejeição de prótese caso seja esta a  técnica a ser utilizada.
Existem três técnicas de reconstrução mamaria: com prótese que com radioterapia está fora de questão, não pode, com prótese e retalho há os que correm bem mas a maior parte dá para torto, e só com retalhos, aqui já vi de tudo vi aqueles em que parece que eu não fiz  nada e aqueles que não correm bem.
Eu ao ouvir tudo isto mais o que as senhoras tinham dito lá fora respondi:
- Sr. Doutor já não quero a reconstrução imediata.
- Foi uma boa decisão Ana Paula. Depois pode fazer a reconstrução e vai ter um melhor resultado vai ver.
- Posso fazer a reconstrução logo acabem os tratamentos? -perguntei eu.
- Não. Tem de esperar entre ano e meio a dois anos para que tudo fique bem cicatrizado bem reconstituído senão a reconstrução pode não dar certo.
Mais uma vez começei a chorar. Ano e meio a dois anos é muito tempo. Como vou eu viver até lá? Como vou eu olhar para mim até lá?
Sai do consultório muito triste. O Jorge dizia-me que eu tinha decidido pelo melhor. Eu não estava muito convencia mas ao mesmo tempo havia alguma coisa que me dizia que tinha sido realmente a melhor opção.